COISAS IRRITANTES

A ÚNICA SAÍDA SERÁ SEMPRE A MELHOR

Por Ricardo Rabelo em 13/12/2016 às 16h22.

           Quero, agora, escrever sobre coisas irritantes. O que já vos causa certa irritação. A tinta da galhofa resvala bem a pena da melancolia, desde antes do cínico Brás Cubas. E é assim que coisas irritantes tornam-se digeríveis. A arte nos faz rir daquilo que a vida nos faz chorar. E trazemos das duas os mesmos olhos manchados de lágrimas. Gargalhamos de comoção, ou choramos de júbilo diante das fitas de Chaplin, das tragédias de Aristófanes e Shakespeare, dos heróis de Cervantes. Em tudo reina a ironia. Não a ironia dos pedantes. Digo da ironia socrática, poetizada por Platão, enlevada pelos românticos.

Todavia, desçamos das nuvens pela corda da sensatez. Deixemos isso de céus metafísicos, que a irritação é uma invenção da terra. Uma nódoa da palavra. A doença do comunicar-se.

            _Você conhece Fulano?

            _Não...

            _Fulano, filho de Cicrano da Padaria.

            _...

            _Que morou uns tempos na Paraíba? Que voltou de lá meio fugido por causa de uma morena que ele engravidou?

            _Não, não conheço.

            _Um louro, baixo, que tem uma cicatriz no lado do rosto. Uma tatuagem de dragão no pescoço?

            _Não, não.

            _Rapaz, um que tinha uns Cds dos Beatles. Acho até que ele te emprestou um. Não lembra, não?

            _Um careca?

            _Não! Ele até usa rabo de cavalo!

            _Ah, então, não. Realmente não conheço.

            _Menino! Ele...

            E por aí vai, até que você se mate ou mate o sujeito indagador. E o detalhista? Aquele que não se contenta em dizer o essencial? Você apenas quer saber do que se trata o filme, ou seja, o gênero, os atores, mero rascunho de resenha. Mas, não! Para ele não basta:

            _O filme? Cara, muito bom! Na primeira cena... Aliás antes, uma música. Aí vão aparecendo os nomes dos atores, dos produtores, roteiristas, o pessoal da fotografia, o continuísta, aqueles créditos todos. Nisso, aos poucos, a câmera se aproxima de uma casa, assim num panorama. Até entrar, a imagem, você entende?, pela janela. Lá dentro, uma mulher dorme. Seminua, mulher parda, maquiagem de ontem, sinais de embriaguez espalhados pelo quarto. De repente, uma sombra...

No meio da história, os ouvidos ouvem blá-blá-blá, feito uma guitarra distorcida tocada no inferno. Eu aprimorei uns macetes hindus para desligar a casca, isto é, o corpo, enquanto o miolo-alma dorme o sono profundo dos justos. É como se o cara conversasse com uma máscara inerte, sem sabê-lo. Mas já aconteceu de eu voltar do nirvana e me sobressaltar com o nobre narrador, invencível apesar das olheiras e de avançada madrugada, terminando o relato do filme.

            Confesso que também já pratiquei algumas chatices. Ainda as pratico, muito embora em doses toleráveis. Por exemplo, se alguém me perguntava se a palavra “amável” recebe acento, eu, podendo dizer que sim ou não, dizia: sim, pois toda palavra paroxítona, cuja desinência qualificadora seja AVEL, recebe acento em sua sílaba tônica. E o mesmo vale para as que terminam em OVEL, IVEL, EVEL. No fim, a criatura ficava tão confusa que escrevia amável com cedilha.

              Corrigia meus alunos explicando que, naquele caso, a oração era subordinada, substantiva, subjuntiva, reduzida de infinitivo. E eles, então, se sentiam vencedores de uma corrida a cavalos de carrossel. Com um “ah, entendi” eles queriam significar “ah, agora entendi pra quê que não serve estudar”.

         A lista pode ser tão extensa quanto irritante: O coisinha, que confunde você com um controle remoto. O repórter de imprensa marrom, que não se aguenta e pergunta “do que vocês estão conversando? É segredo ou eu posso saber?” O bêbado-guarda de trânsito, que te cerca na rua, te obriga a sentar-se à mesa, no bar e ouvir toda a palestra de sua ruína (de cinco em cinco minutos pede um copo limpo ao garçom, para que você o acompanhe). O super sincero, que faz comentários do tipo “Na boa. Nada a ver esse tênis. Não valorizou a meia. E o cabelo tá estranho. Mas eu só tô dizendo isso porque sou teu amigo”. Etc.

O melhor remédio, leitor, é rir. A única saída será sempre a melhor.


Comentários:

Ricardo Rabelo Ricardo Rabelo é: Mineiro, graduado em Letras, estudante de Filosofia. Escreve versos, contos, crônicas. Já produziu um romance. Não possui nada publicado, com exceção de três textos lançados em coletâneas da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Já ministrou minicursos em diversas áreas do conhecimento. É professor de Língua Portuguesa na rede pública. Católico praticante, filho de pais missionários. Casado com Silmara Rabelo. Integrante do Organon- Academia do pensamento filosófico. Com 55 publicações.

Outras Publicações